O Coordenador da sessão com o tema "Tecnologia da informação: impacto sobre pacientes, atenção à saúde e custos", durante o IHF Rio 2009, o pesquisador e diretor do Centro Paulista de Economia da Saúde da Universidade Federal de São Paulo, Marcos Bosi Ferraz, adianta nesta entrevista que antes de optar por novas soluções tecnológicas, o administrador hospitalar precisa definir uma estratégia de aplicação, o que inclui pessoal treinado e capacitado. Além disso, é preciso ter consciência de que é um investimento, no mínimo, de médio prazo. Dessa maneira, o uso da tecnologia permite não só a redução de custo como aumento da eficiência, gerando maior expectativa e qualidade de vida.
O que é fundamental para os administradores de hospitais saberem sobre
Tecnologia da Informação?
O principal aspecto é reconhecer que as boas decisões em nome do hospital ou do sistema de saúde (dos cidadãos) dependem do uso apropriado dos dados e informações disponíveis. Desta forma, investimentos que sejam adequados para a obtenção qualificada destes dados e informações são absolutamente necessários, o que não apenas inclui a aquisição de tecnologias, mas também a existência de recursos humanos minimamente treinados e capacitados. Neste processo a definição clara por parte da organização e seus administradores de sua missão e visão é de fundamental importância. Ainda, embora haja uma renovação tecnológica acelerada, os investimentos em TI requerem uma visão no mínimo de médio prazo.
Como a tecnologia pode reduzir custos na gestão hospitalar?
A saúde é um exemplo de sistema onde o objetivo não deveria ser a simples redução de custos, mas sim o aumento da eficiência. Ou seja, a geração de um ganho de saúde (maior expectativa de vida e maior qualidade de vida) a um custo que seja reconhecido e valorizado pela sociedade, ou um ganho de saúde que justifique os custos incorridos. O que temos observado nos últimos 50 anos ou mais é um crescente aumento da expectativa de vida e melhorias na qualidade de vida das pessoas. No entanto, no que tange a custos, há também um aumento constante. Na década de 1960 os países desenvolvidos investiam cerca de 4 a 5% dos seus PIBs, na década de 1980 investiam em torno de 8% dos seus PIBs e já neste século mais de 10 países investem próximo ou mais do que 10% dos seus PIBs em saúde. Vale notar que além do aumento relativo, há também um aumento absoluto do investimento per capita em saúde. Este é um indicador poderoso não só do reconhecimento do valor gerado pelo conhecimento produzido e implantado no sistema de saúde, mas também da sociedade no que tange a relevância relativa dos diferentes setores da economia que competem pelo seu uso. A partir do momento que sociedades resolvem problemas básicos (educação, habitação, saneamento básico, entre outros) o investimento pode ser redirecionado ou priorizado para outros setores, como o da saúde. O sistema de saúde é complexo e há inúmeros fatores que justificam tal aumento de custos nas últimas décadas, apesar ou além do uso em si da tecnologia. O que é preciso é a sociedade estar preparada para assumir este maior custo e isto requer um enriquecimento da nação e das famílias, bem como um reconhecimento do valor econômico do bem "saúde".
Mas, como a tecnologia da informação pode ajudar nesse sentido?
Nesse contexto, a tecnologia da informação, que também tem um custo para o sistema, tem um papel de fundamental importância no sentido de proporcionar
o aumento da eficiência do sistema de saúde. O lidar com dados e informação
em saúde, e a geração de um conhecimento aplicável são críticos para a tomada de decisão e a escolha em ambientes com restrição de recursos. A
redução do desperdício de recursos (e retrabalhos), bem como o aumento da
segurança do sistema de saúde depende de sistemas de informação adequados e usados de forma apropriada. Tal tecnologia deverá ocasionar aumento de custos em situações onde há uma produção de saúde, e redução de custos, fruto de uma redução do desperdício no uso do escasso recurso ou orientação das escolhas fundamentadas no uso das melhores evidências ou conhecimentos disponíveis.
Os hospitais, clínicas e laboratórios já lidam bem com o avanço
tecnológico?
O Brasil é um país continental e cheio de contrastes. Sem dúvida há
prestadores de serviço que se preocupam em não apenas incorporar as novas
tecnologias, mas também avaliar a propriedade destas incorporações segundo
diferentes perspectivas, incluindo a do cidadão usuário de seus serviços. A
tecnologia já está entre nós e existem algumas soluções muito interessantes
sendo testadas ou já implementadas. O segredo que envolve o ritmo e a
intensidade desta incorporação está na conciliação entre o desejo e a
tentação pela nova tecnologia, o seu uso no curto prazo e a visão de longo
prazo, num ambiente onde as escolhas (que são estratégicas) precisam ser
feitas, pois não há recurso suficiente para incorporar toda a tecnologia ou
conhecimento já disponível. Como em qualquer outro ambiente, estas escolhas que não são simples dependem fundamentalmente de pessoas.
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